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A esmola (artigo)

sexta-feira, março 26th, 2010 473 views

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Julio Capilé

“Dai antes esmola do que tiverdes.” (Lucas, 11:41.)

Quando Lucas registrou essa expressão de Jesus, os ouvintes pensavam e, ainda hoje muitos pensam que é aquela esmola constituída de uma moeda lançada, com indiferença, na caixinha do mendigo. No entanto a frase diz “do que tiverdes” e não “do que detendes”. Isto significa que não é a esmola física que devemos dar como seguidores do Cristo. Esta que constitui o que possuímos em finanças é sempre uma dádiva de Deus que depõe em nossas mãos para ensaiarmos a administração da vida e crescermos em trabalhos que a moeda proporciona. Aquela, “do que tivermos” são as virtudes que emolduram o espírito que somos. Há no Evangelho o caso da viúva que deu a única moeda que possuía. Mas neste caso Ele se refere ao desprendimento como a moeda do coração. Se dermos uma esmola indiferente à vida de quem recebe, de nada vale como caridade, pois esta é revestida de muitas virtudes..
A compreensão das necessidades espirituais que o pedinte tem é muito importante. Raras vezes temos a oportunidade de parar para trocar algumas palavras, mas um sorriso de incentivo e compreensão; às vezes apenas um bom dia acompanhado de palavra encorajadora, de um gesto amigo e compreensivo, são pequeninas coisas muito importantes para quem está tão “por baixo!”
Existem almas valorosas suportando, além da pobreza, outros sofrimentos atrozes junto aos seus, como filha inválida, esposa doente. Ele, coitado, tem as pernas com paralisia espástica, um braço semi-paralisado por um AVC. Conheço um assim. Está sempre sorrindo em sua cadeira de rodas (que lhe é uma bênção) e, no regaço, conduz sacos vazios que vende. Tem sempre uma palavra alegre ou uma risada quando a gente dele se aproxima. Conta anedotas e não se queixa. Psicologicamente é normal. Seu exemplo constitui um incentivo para pessoas deprimidas às quais nada falta.
Esmola, para ser caridade, tem que ser acompanhada da parte espiritual: uma palavra amiga, um interesse sobre a família, e, para ser completa, se possível, praticarmos a comiseração que é a piedade acompanhada da resolução dos problemas. Alguns são insolúveis por serem cármicos, mas, pelo menos a gente deve demonstrar algum esforço nesse sentido.
O que é que temos de fato? – São as virtudes acumuladas em várias encarnações e nas lutas intermediarias quando no plano espiritual. Além das virtudes, também o conhecimento que aliado a elas constitui a sabedoria. Essa é a nossa riqueza. O dinheiro e todos os bens terrenos são empréstimo de Deus que é o Dono de tudo no universo. São nossos os bens que adquirimos com o esforço íntimo: o sentimento, as emoções, as reações que provocamos ao próximo, benignidade, tolerância, compreensão, perdão, enfim, o amor incondicional. Quando pensamos mal de alguém, quando temos alguma mágoa, quando desejamos mal ao próximo, quando não compreendemos os atos infelizes do semelhante, quando não perdoamos aos outros e a nós mesmos, enfim, quando nos sintonizamos com faixas vibratórias inferiores, de nada vale dar muita coisa material, porque aí, deixamos longe a caridade. Quando ajudamos com bens materiais nas hecatombes, nos sofrimentos coletivos, não estamos praticando a caridade. Estamos sendo solidários. É esmola do que não é nosso; é do empréstimo de Deus. Convido à meditação: pesquisemos nosso íntimo para ver qual nossa situação ante a frase de Jesus



O poder da fé (artigo)

quarta-feira, março 17th, 2010 325 views

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Julio Capilé

(“Onde está a vossa fé?” Jesus. Lucas,8,25.)
Jesus naquela manhã acompanhou os discípulos mais chegados à Sua intimidade, os pescadores. Tomaram o barco e velejavam serenamente em busca de cardume para enriquecer a cozinha de cada um e, da sobra, atender aos clientes que lhes proporcionavam os parcos recursos para sua pobreza honesta. Aproveitando o balanço calmo do barco, o Mestre repousava na cabine aconchegante. Eis que de repente veio um vendaval que açoitava a vela da embarcação, fustigava as águas criando ondas gigantescas e preocupantes para os velejadores. João, o mais moço e sempre corajoso, acostumado a subir no alto do mastro quando necessitava desenroscar o cordame da vela, também ficou com medo. Embora todos acostumados aos revezes da sorte, desta vez temeram pela vida. E o Mestre dormia…
Correram a chamar Jesus: Mestre. Mestre, eis que soçobramos. Ele, tranquilamente, levantou as mãos para o lado donde vinha o vento e este, pouco a pouco se foi acalmando, as ondas serenaram e a normalidade voltou na embarcação. Os pescadores ficaram então a perguntar entre si: “Que homem é esse que manda na tempestade?”
O “Filho do Homem” então deu grande lição sobre a fé, com a pergunta exclamativa: “Onde está a vossa fé? Com isso Ele nos dá o ensinamento de que é nos momentos difíceis que devemos usar nossa fé que, segundo Ele, tem força, se verdadeira, até para transportar montanhas. Muitos exegetas costumam dizer que esse “transportar montes” não é de coisas físicas e sim de dificuldades da alma. Eu, porém, creio sinceramente, que a fé do tamanho da de Jesus, pode mover montanhas físicas mesmo, assim como acalmou a tempestade e realizou muitos “mistérios” como diziam os discípulos.
Todos os fenômenos da natureza são manipulados pelos espíritos com essa obrigação, especialistas e para isso, estão sempre a postos. Os ventos, as chuvas calmas ou torrenciais, a movimentação das placas tectônicas, as grandes ondas, os raios, etc. são controlados por exércitos de espíritos que alguns chamam de Espíritos da Natureza ou Elementais. Têm um comando. Os elementos não estão fora do controle deles. O fato é que há necessidade (eles sabem quais e quando) de hecatombes ocasionais para acomodação da Terra e lições para a humanidade. Esta, porém, vive descuidada das coisas do espírito e, de encarnação em encarnação, acumula resíduos a descartar. Vem a lição maior e estranha: “que mal fiz eu”? E morrem muitos ditos “inocentes”.
Vivemos descuidados da fé, não a cultivamos, por qualquer coisa mais “chamativa” descontrolamo-nos e ficamos a bradar por socorro dos céus, sem a devida calma que atesta a existência de fé viva. Assim como o centurião que pediu socorro para seu serviçal e disse a Jesus: não necessitas ir lá! Comando centúrias: eu digo a um faz isto e a outro faz aquilo e eles obedecem, assim também sei que podes dizer a um de teus comandados para realizar o que desejas à distância. E Jesus elogiou aquela fé do soldado e seu serviçal ficou curado.
“Seja o teu falar sim, sim ou não, não”. “Tudo o que Eu faço podeis fazer e muito mais”. São afirmativas d’Ele e, grande parte dos cristãos não acredita. Mas nós podemos, em tendo fé, realizar prodígios como Ele ou muito mais, segundo Sua palavra.

Publicado pelo Jornal O Progresso.



Herança de si mesmo (artigo)

quarta-feira, março 3rd, 2010 275 views

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Julio Capilé*

julio.capile@apis.com.br

Os problemas existenciais comum na maioria da humanidade têm origem em vidas pregressas. Milhares ou milhões de reencarnações passaram por lutas de toda ordem. Umas, bem sucedidas, deixaram no espírito a paz e a segurança. Outras não bem resolvidas acarretam um mal estar indefinido na reencarnação em curso.
Todos nós temos inseguranças pelo menos em alguns momentos. E todos têm medo do desconhecido. A insegurança, o medo, os atos e pensamentos imaturos ressumam de problemas mal resolvidos no passado, nesta ou em outra encarnação. As culpas criadas em vidas passadas resultam numa complexa sensação de insegurança. É muito difícil a pessoa viver sem pensamentos negativos. Sabemos disso, estudamos sempre sobre o assunto, mas existe a insegurança do futuro próprio e dos filhos e parentes. Todos vivem preocupados com o dia de amanhã. Daí os seguros disto e daquilo, as poupanças forçadas, a luta corrida do dia a dia para deixar o melhor que puder para a progênie. Tudo isso é insegurança e, até certo ponto, criancice ou falta de fé no Criador e em si mesmo.
Desde as primeiras encarnações o espírito vem lutando para evoluir. Alguns atos resultam em sofrimento repetitivo até aprender que aquilo não lhe faz bem. Imaginemos quanto milhões de atos errados que fizemos. Os erros deixam um travo amargo, mesmo que sejam insignificantes. Dependendo do grau evolutivo mais sensibilidade terá o espírito e, assim, a consciência acusa com mais intensidade. Um ato que para Chico Xavier quando praticava era, para ele, um grande erro, para pessoa como eu nem seria notado ou sentido. O espírito atrasado parece que recebe mais condescendência divina, pois não sente os pequenos males praticados e sim os mais grosseiros. Depois que fica com a consciência mais evoluída sofre por mais tempo aquele martelar do eu não devia ter dito e feito aquilo; perdi boa hora de ficar calado e ai vem a preocupação de desfazer o equívoco, mas a palavra falada não volta para a neutralizarmos e isso pode passar para a vida seguinte. Então, em igual circunstancia na vida seguinte, surge a insegurança. O espírito guarda para todo o sempre enquanto “não pagar o último ceitil”, conforme Jesus ensinou. Não importa que seja uma pessoa bem situada na vida, patrão de muitas pessoas, mandão. A insegurança fica a perturbar-lhe o sono e mesmo na vida de relação pode demonstrar essa fraqueza.
O interessante é notar que o ser humano é insaciável e isso fica bem patente nas pessoas que conseguem fazer grandes fortunas. Apesar de muito ricas, discutem por migalhas. É mais comum os pobres serem mais desprendidos do pouco que têm. Há mais solidariedade numa comunidade com poucos recursos do que entre os portadores de riqueza e prestígio. Estes vivem numa luta constante de devorarem-se uns aos outros. Muitas vezes têm insônia por insegurança e inveja de quem foi mais bem sucedido num negocio. A alma apegada às coisas mundanas nunca tem paz na consciência.
Sabendo da sobrevivência da alma e de seu retorno sucessivo, é bom estarmos sempre atentos para os deslizes, por insignificantes que sejam para evitá-los. Depois de feitos, a consciência martela a mente cobrando atenção para a próxima vez. É importante a meditação para descobrirmos onde estão os erros ancorados em nosso passado. Com poucos minutos por dia em isolamento e silêncio (o Chico usava a música) a gente consegue descobrir os escaninhos onde se encontra a poeira dos pecados passados. Duros de limpar, mas se os conhecermos já é meio caminho andado para começar a limpeza. Deus ajuda sempre a nossa boa vontade. Não deixemos mais danos para a outra encarnação. Tenhamos fé: um dia seremos anjos.

*Publicado no Jornal O Progresso



Paulo e a mediunidade (artigo)

quarta-feira, fevereiro 24th, 2010 308 views

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Julio Capilé*
Quando se estuda o Novo Testamento à luz do espiritismo a gente encontra jóias de orientação mediúnica dadas por Paulo. Suas cartas trazem ensinamentos de todo o tipo, mas sobre a mediunidade é muito claro. Em I Coríntios notamos com mais destaque no capítulo 14. Geralmente quando as pessoas vão falar sobre Paulo de Tarso e suas epístolas, pinçam uma frase ou outra, como nesse capítulo dos quais destacam o último versículo que é “importa que seja tudo feito decentemente e com ordem” para falar sobre a disciplina que deve haver no trato com os espíritos. Mas ele finaliza para lembrar que no trato com a mediunidade (que ele chama de profecia) deve-se ter muito cuidado. Na época apareciam muitos médiuns poliglotas como os 120 do Pentecoste que respondiam a qualquer língua as inquirições dos “turistas” e habitantes de Jerusalém. No Centro (que no caso era a igreja), porém, de nada adiantava receber espírito falando língua desconhecida de todos, pois a finalidade da comunicação é fazer-se entendido.
Interessante que ele explica pormenores de mediunidade, com outras palavras, mas dá para entender que o Cristianismo de então era como o espiritismo agora, simples, sem outra coisa além dos ensinamentos que receberam de Jesus e de seus apóstolos: tratar a todos com amor, ter cuidado com as comunicações, inclusive há um versículo de uma de suas mensagens que diz para terem cuidados e verificarem “se o espírito veio de Deus”. Hoje nós procuramos o mesmo cuidado quando uma mensagem se reveste de muita revelação de coisas desconhecidas ou de fatos que estão acontecendo ou que venham a acontecer. Kardec, da mesma forma, diz para termos esse cuidado e que é preferível recusar nove verdades a aceitarmos uma mentira.
Em Atos que é a descrição de Lucas dos fatos ocorridos nas viagens de Paulo, as manifestações mediúnicas são contadas como prodígios e revelações. Durante mais de 18 séculos os homens, por um motivo ou por outro, que não nos cabe julgar se justos ou não por desconhecermos as razões de cada época, bloquearam os ensinamentos, que permitiriam a todos, os conhecimentos que só agora são dados às pessoas comuns. Até o começo do século passado não era permitido às pessoas comuns lerem a Bíblia que era só o Velho Testamento e nem O Novo Testamento (Evangelho). Isto era coisa só para os sacerdotes. Os protestantes é que difundiram o conhecimento dos livros. Agora anexaram um ao outro. É a nova bíblia.
Com o advento de Kardec a espiritualidade superior como um grande farol iluminou a humanidade trazendo a compreensão dos dizeres dos primitivos cristãos. Deve ser o início da preparação para modificar espiritualmente a terra que deixará de ser um mundo de provas e expiações para ser de redenção. Ai será de um só rebanho e um só pastor. Não devemos desanimar. Embora existam prenúncios de que vivemos o tempo predito no apocalipse, provavelmente ainda nos será dado algum período para praticarmos melhores pensamentos, palavras e atitudes; e, como nos dizeres de João Batista, retificar as veredas do Senhor, de modo a permanecermos nesta terra tão boa. Se não, tenhamos fé de que iremos com vontade de trabalhar. A evolução continuará aqui ou alhures. Podemos manter a certeza de que um dia seremos anjos.

*Médico – julio.capile@apis.com.br



Capilé analisa a Casa Espírita

quarta-feira, outubro 22nd, 2008 402 views

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Por Júlio Capilé

 

Organização e Métodos é um ramo da ciência administrativa necessário em todos os setores da vida. Uma casa espírita tendo de ser administrada, não prescindirá de seguir aquilo que esse ramo da ciência recomenda. A começar por usar a disciplina.

Um centro espírita é, inicialmente pequeno e fácil de administrar.  Só tem um grupo que faz tudo. Pessoas que se afinam entusiasmadas em realizar o melhor possível e assim por muito tempo. É um conjunto coeso e, como um feixe de varas, é forte nas orações, atendimento aos necessitados e em todas as obras em conjunto. Realiza maravilhas. Com o tempo e mesmo pelas obras apresentadas, vai crescendo. Tem que ser subdividido em grupos, depois em serviços, departamentos, quiçá em superintendências.

Começam os problemas, pois a maioria não se conhece. As pessoas vêm de iniciações diferentes, conservam hábitos diversos, já passaram por outros centros e, o que é comum, por outras crenças. Cada pessoa vive um universo aparte.

Casa que cresce muito fica com dezenas de grupos com diversas finalidades e dirigentes vários. É lógico todos serem selecionados. São respeitáveis, conhecedores da Doutrina, cônscios de seus deveres, mas cada um tem seu estilo de dirigir. De diferença em diferença, um que outro grupo acaba apartando-se do método inicial.

Segundo Paulo de Tarso, “importa que pratiqueis a sã Doutrina”, mas o ser humano tem a tendência em criar e inventar. Assim aconteceu com o Cristianismo. Inicialmente puro, foi pouco a pouco acrescentando hábitos oriundos dos hebreus e dos romanos, criou outros, atendeu interesses estranhos e deu nas pompas e circunstâncias que desde o século III são usadas.

O Império Romano durou por quê? – É porque tinha disciplina. A base da realização é disciplina. Chico disse que para ser médium é preciso ter três coisas: disciplina, disciplina e disciplina. Não disse “bom médium”. Disse médium.

Na Casa Espírita ocasionalmente há mudanças no comando. Lógico que essa mudança não afeta a base da Doutrina. Acontecem pequenos ajustes, principalmente em determinados grupos cujos membros trazem hábitos estranhos à doutrina: uns querem distribuir rosas “para manter a pessoa livre do mal”, outros criam sistemas de passes ruidosos ou falados, outros modificam a maneira de atender ao espírito necessitado. Um quer usar ramos de arruda e aconselhar banhos de sal grosso. Outros misturam rituais budistas. Tudo respeitável, mas que não é kardecismo. Essas pequenas arestas é que devem ser aparadas. Conversando com calma haverá entendimento. Conversa dentro da lógica, do conhecimento e do amor fraterno.  Há também o caso de algum dirigente achar que há exagero nas especificações da diretoria, mas o centro vive democraticamente. Ninguém é “dono” de grupo, embora o dirija por muito tempo. Devem ser feitas reuniões periódicas dos dirigentes, em a qual cada um pode expressar seu modo de dirigir e defender seus pontos de vistas. No Brasil falamos português, mas o carioca, o cuiabano, o cearense, o gaúcho bem como os das outras regiões, tem seu sotaque. Assim também os dirigentes de grupos. Cada um tem sua pequena variação que não afeta em nada a Doutrina. Essa variedade unida, é que faz a Doutrina forte. É só não botar penduricalhos que tudo funciona bem. Assim também a Direção da Casa harmoniza-se com todos.

Quando há uma tentativa de mudanças em um departamento, geralmente deve ser como método experimental no sentido de tentar melhorar. Se não der certo, muda. Mas para isso é preciso que cada um faça sua parte nesse sentido, pois se não houver disciplinada união, não se ganha nenhuma batalha. Quando estão todos com o mesmo propósito, sem mágoa, visando apenas o bem, vigiando-se internamente, vivendo os ensinamentos do Cristo, o conjunto fará um facho de luz visto à distância pelos espíritos. Luminescência tal que só permitirá entrada dos espíritos do mal se for acompanhada por seus protetores e com autorização da Direção Espiritual da Casa.   

 

*Médico. Escreve às 4ªs feiras no O Progresso.



Nos planos espirituais

quinta-feira, agosto 28th, 2008 465 views

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 Julio Capilé

(Publicado pelo Jornal o Progresso, em 27 de agosto, de 2008)


Quando ainda não era conhecido o Espiritismo, de posse dos ensinamentos das religiões conhecidas no Mundo Ocidental, a gente pensava que depois de morta a pessoa seguiria para o Céu ou para o Inferno. Com o advento da Doutrina de Kardec ficou-se sabendo que o espírito desprendido da matéria com o fenômeno da morte, ficaria na erraticidade. Essa erraticidade dava-nos a impressão de que a alma ficaria a esmo, sem rumo e sem destino, a não ser que fosse esclarecido em um centro espírita de onde os espíritos superiores encaminhariam para pouso de descanso e paz. Isso ficou mais ou menos obscuro até quando Chico Xavier passou a psicografar mensagens de André Luiz, iniciando pelo livro O Nosso Lar. Neste foram desvendados os mistérios que envolviam aquela palavra erraticidade. Ficamos sabendo que o espírito ao desencarnar segue para o local que suas vibrações o conduzirem.
Ficou-se sabendo que há uma variedade infinita de pousos para o espírito. Os cultivadores da maldade são atraídos pelas trevas; os medíocres para lugares mais ou mentos condizentes com seu pouco desenvolvimento; os bondosos encontram paz e trabalho edificante. Em cada país e, talvez, em cada etnia, existem locais apropriados para receberem os espíritos daquela nação, daquele dialeto, de modo a entenderem os espíritos do Bem que desejam auxiliar. Existem cidades bem desenvolvidas espiritualmente onde até a energia é de causa física fluídica. Há cidades atrasadas cujos habitantes ainda necessitam do alimento físico e sofrem por levarem consigo vícios quando na carne. Como as tendências são incontáveis, também o são os núcleos habitacionais do plano espiritual.
Em o Nosso Lar a gente conhece alguns locais situados mais ou menos sobre o estado do Rio e de Minas, mas da mesma forma existem em vários locais do Brasil e do mundo. O fato é que o Criador não desampara ninguém. Os que ficam à retaguarda terão sempre oportunidade de dar mais um passo rumo à evolução em encarnações vindouras. Os que aproveitaram a escola da Terra têm locais condizentes com sua delicadeza, amorosidade e, principalmente, pelos trabalhos no bem, executados durante a encarnação.
Conta-se um caso dito verídico que uma senhora, com doença incurável, perguntou, em uma junta médica, que tempo teria de vida. Que fossem francos. Disseram-lhe que lhe restavam três meses. Ela não se alterou. Continuou tranqüila e ao chegar em casa relatou o fato aos familiares, sem se alterar. – Disse: três meses são 120 dias. Se eu fizer uma boa ação cada dia, serão 120 boas ações. Esse será meu programa de vida. Com perseverança foi fazendo as boas ações, compreendendo todos, auxiliando tanto quanto podia, até com sacrifícios. Os dias foram passando e, como ela não pensava em si mesma, não percebeu que os 120 dias se escoaram. E fez por mais vinte e três anos. Sem nenhum sofrimento. Quem não é sofredor não se queixa. Não se queixando não atrai piedade. Não atraindo piedade não atrai espíritos sofredores e, distribuindo bom ânimo e alegria, mantém-se feliz. 

*Médico. Escreve às 4ªas feiras no O Progresso.
julio.capile@apis.com.br
*Médico. Escreve às 4ªas feiras no O Progresso.
julio.capile@apis.com.br