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Sucesso em adoções e reintegrações familiares no DF, abrigo Nosso Lar realiza campanha para arrecadar R$ 400 mil e enfrentar mais um ano de queda na receita

21/11 | Editado por: Tarsila Braga
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Venda de cupons para o sorteio de Fiat Mobi segue até 28 de dezembro.

Paulo, 13 anos; Luís, 11; Joana, 8; e Francisco, 7 (nomes fictícios). Os quatro irmãos foram afastados da família de usuários de drogas por violência doméstica e abuso sexual pelo pai. Após denúncia ao Conselho Tutelar, as crianças vivem há três anos no abrigo Nosso Lar, no Núcleo Bandeirante, junto a outros 26 menores em medida de proteção.

Ali também está o bebê Bruno (nome fictício), de apenas um ano, nascido sem os dois hemisférios do cérebro. Filho de uma usuária de crack que o deixou no hospital, ele contraria as predições médicas do seu óbito iminente e segue na lista de adoção.

Em funcionamento há 47 anos, o abrigo Nosso Lar orgulha-se de ser modelo de reintegração de menores a suas famílias, adoções bem-sucedidas e formação de jovens autônomos e bem integrados à sociedade.

Hospedagem para crianças em tratamento de saúde

Além das 30 crianças em medida de proteção, a instituição também hospeda 15 crianças e suas mães que vêm ao DF para tratamento de saúde. “Descobrimos essa demanda por meio de parceiros como os hospitais Sarah Kubitschek, HMIB e Hospital da Criança. As que necessitam são hospedadas por nós enquanto fazem o tratamento. No primeiro ano desse trabalho, fizemos mil atendimentos, sendo 500 crianças e 500 mães”, informa a presidente do Nosso Lar, Patrícia Braga.

São inúmeros os casos de transplantados, até um coronariano, pacientes oncológicos e amputados. “Para as mães, é um momento muito delicado, pois, além de enfrentarem diagnósticos às vezes gravíssimos para seus filhos, precisam deixar o resto da família e vir para uma cidade onde não sabem nem mesmo se locomover”, acrescenta. Durante a pandemia, o Nosso Lar suspendeu as hospedagens, já que os hospitais passaram a não mais receber essas crianças, que poderiam ter suas enfermidades agravadas pela viagem, mas, a partir de fevereiro de 2021, o serviço será reativado.

Braga relata que a hospedagem já havia sido suspensa por um ano por falta de dinheiro, já que esse é um serviço que não conta com ajuda governamental. No entanto, o serviço retornou tão logo souberam de uma mãe que dormiu com o filho na parada de ônibus porque o hospital em que iniciaram o tratamento não permitiu a internação. “Decidimos abrir a casa com a cara, a coragem e a fé que a gente tem”, desabafa.

Campanha Natal Criança Nosso Lar

Com despesas mensais da ordem de R$ 110 mil e receitas oriundas parte do GDF, parte de doações, o Nosso Lar enfrentou uma perda de 50% dos recursos em 2020. O grande motivo foi a não realização da tradicional festa junina, com a qual a instituição arrecadou, só no ano passado, cerca de R$ 160 mil. “Temos um deficit de R$ 20 mil mensais e necessitamos não só cobrir o rombo de R$ 70 mil deste ano como nos prepararmos para enfrentar 2021, quando possivelmente também não poderemos realizar a festa”, relata a presidente.

Para fazer frente às necessidades das 60 pessoas que atende, entre 45 crianças e 15 mães, o Nosso Lar lançou a Campanha Natal Criança, pela qual fará o sorteio de um automóvel Fiat Mobi no dia 30 de dezembro. Os cupons estão à venda no site do abrigo (https://sorteio.abrigonossolardf.com.br/doacao). Cada cupom custa R$ 20 e dá direito a cinco números. O sorteio será feito pela Loteria Federal e a venda dos cupons fica aberta até o dia 28 de dezembro. “Se conseguirmos vender todos os bilhetes, poderemos ficar tranquilos para o ano que vem”, diz Patrícia Braga.

O dinheiro do sorteio do carro vai garantir a alimentação especial das crianças, especialmente das doentes, que necessita ser rica e balanceada. “Precisamos oferecer carne, peixe, legumes, verduras e frutas, e isso não vem na cesta básica que recebemos através das doações. Precisamos também trabalhar a autoestima dessas crianças, que muitas vezes estão enfrentando um tratamento oncológico, um transplante ou uma amputação; precisamos trabalhar a afetividade, a alegria e o bem-estar delas, e isso tem um custo”, sublinha Braga.

O diferencial do Nosso Lar

O atendimento individualizado a cada criança, não só no aspecto material, mas principalmente no campo psicológico e emocional, é o que diferencia e garante o sucesso da instituição. “Nós trabalhamos também a autoestima dessas crianças. Nós damos a elas, por exemplo, um creme hidratante, um shampoo infantil, um brinquedo específico ou adaptado, um corte de cabelo. As pessoas acham que crianças de abrigo não precisam disso, mas são elas as que mais necessitam. Quando chega um visitante, um futuro pai ou mãe, eles encontram uma criança que está bem com ela mesma, pois foi criado o hábito do autocuidado. Isso tem um custo”, informa a presidente.

Segundo Braga, o Nosso Lar não dispõe de uma padaria ou marcenaria, pois nem todos querem ser padeiros ou marceneiros. “Percebemos o dom e a habilidade de cada um e investimos naquilo. Há os que fazem um curso de desenho, outro vai para a escolinha de futebol, outro vai fazer inglês. Respeitamos o que eles querem para a vida. Todos vão à escola desde os 4 anos, quando se inicia a pré-escola na rede pública. Estudam no Núcleo Bandeirante, que é próximo, pois assim podem fazer trabalhos em grupo, trazer os amigos ou visitá-los em suas casas, como qualquer criança normal”, relata.

Atendimento psicopedagógico

O Nosso Lar também cuida da saúde da criança em medida de proteção desde o momento em que chega. “Fazemos uma bateria de exames na rede pública. Exames específicos são muitas vezes realizados com parceiros, voluntários ou com nosso próprio dinheiro. São exames e testes com psicopedagogos e fonoaudiólogos para avaliar o comprometimento com a aprendizagem. Buscamos o atendimento global da criança”, afirma.

Duas psicólogas trabalham no abrigo, já que, ressalta Patrícia Braga, o abandono familiar será sempre uma marca na vida de quem o vivencia. “Você pode superar, mas isso fará sempre parte da sua história. É muito importante que a gente trabalhe isso na área das emoções, na aceitação da própria história e também na possibilidade de dar uma virada, construir uma família diferente. Às vezes eles falam: ‘Ah, a minha família nunca ligou pra mim’, mas dizemos: a sua família pode não ter ligado para você, mas você vai fazer uma família totalmente diferente e terá a família que sempre sonhou”.

Sucesso nas adoções e reintegrações

Patrícia Braga orgulha-se de dizer que a boa equipe técnica do Nosso Lar garante o sucesso nas adoções. Mas antes de elas acontecerem, muitas vezes é preciso esgotar as possibilidades de reintegração às famílias, e também nisso a instituição se destaca. “Fazemos reintegração familiar até para outros estados. Pagamos a passagem, a assistente social e às vezes a mãe cuidadora acompanha a criança para dar segurança nessa hora. Vamos em busca da família até o limite, pois é muito ruim a criança ir para a adoção e a família reivindicá-la. Por isso, esgotamos todas as possibilidades, mesmo que tenha um custo maior para nós”, explica.

Uma história bonita de adoção aconteceu com a Bruna (nome fictício). Ela foi adotada ainda menina no Nosso Lar. Hoje é advogada e voluntária na instituição. “Imagine nossa surpresa quando, na reunião semestral de candidatos a voluntários, ela se apresentou ao grupo como ex-moradora do Nosso Lar. Foi pura emoção”, relata Patrícia.

“Crianças adotadas na instituição combinam de se reencontrar em nossa festa junina. É uma alegria só. Muitas delas voltam aos domingos para brincar com os amigos que ficaram e para visitar suas cuidadoras. É tão bom quando conseguimos deixar lembranças boas na vida delas!”, afirma Braga.

Já os que não foram reintegrados ou adotados permanecem no Nosso Lar até os 18 anos. Também estes saem para o mundo adaptados e bem formados profissionalmente. Muitos retornam para auxiliar as crianças que ali residem. “Temos um cabeleireiro, um instrutor de squash, um que faz pequenos reparos, há os que fazem campanhas nas comunidades onde moram, ajudam na festa junina. É maravilhoso quando a criança que aqui morou retorna para ajudar o lugar onde cresceu”, finaliza Patrícia Braga.

Por Ana Cristina Sampaio
Revisão Silmara Sundfeld

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