Leia mais notícias...

Destaque

Especial Mães da Vila Cristã:  Da solidão das ruas e outras lutas mais, o renascer de uma mãe 

14/05 | Editado por: Ana Cristina Sampaio Alves
Este post já recebeu 336 views
Baixe este post em PDF

 Aos 39 anos e com cinco filhos, Cléuvia Silva Matias espera com ansiedade o nascimento do seu segundo neto. Neste depoimento, ela mostra como é possível superar os desafios da vida e como um simples gesto de solidariedade pode mudar um destino. Da solidão das ruas à violência doméstica, foi na generosidade das pessoas em que ela encontrou apoio e força para seguir em frente. Confira essa história cheia de lições de vida e superação:                                

 Durante seis meses, a plataforma da Rodoviária e a quadra 304 Sul foram a morada de Cléuvia Silva Matias, 39 anos. A experiência, repleta de insegurança, medo e sensação de abandono, aconteceu há exatos 23 anos, quando a adolescente de 16 anos ficou grávida do seu primeiro filho, Rafael, após um relacionamento amoroso passageiro.

Expulsa de casa, ela conta que não teve outra escolha. De uma coisa estava certa: não iria provocar um aborto. “Foi a fase mais difícil da minha vida. Cheguei a passar fome e ser internada duas vezes no Hospital de Base de Brasília”, relembra.

“Nesse período eu não usava drogas, mas comecei a beber com outros moradores de rua”, relata essa cearense de Sobral que chegou em Brasília em 1994.

E apesar da indiferença de muitos que a viam ao relento enquanto a barriga não parava de crescer, Cléuvia conta que nunca se esqueceu dos gestos solidários de algumas senhorinhas frequentadoras da igreja São Camilo, na 304 Sul. Sensibilizadas com a situação da adolescente, algumas lhe ofereciam comida, e outras chegaram a doar peças para o enxoval do bebê.

Resgate: nascendo de novo

O maior dos gestos de solidariedade, no entanto, viria três meses antes de dar à luz. Era a mão amiga de Deus em seu auxílio, hoje não duvida disso. “Foi dona Judilita quem me tirou das ruas”, comove-se, para explicar como tudo aconteceu.

 “Quando eu vim para Brasília, trabalhei por um tempo na casa dela, na Asa Sul. Depois eu larguei o emprego e a gente não se viu mais. Um dia, ela me viu morando na rua, com barrigão, e me levou para o apartamento dela, onde fiquei até ganhar o bebê”.

Era como nascer de novo, já que na rua ela estava exposta a toda sorte de perigo, sem falar da sensação de solidão e abandono.

Em casas diferentes, porém presente     

Cléuvia conta que chegou a morar uns meses na casa da avó paterna do filho, que lhe pediu para criar o neto. Ainda muito jovem e sem saber que rumo tomar na vida, ela consentiu que o filho recém-nascido ficasse sob os cuidados da avó.

“Mas se eu pudesse voltar atrás, faria diferente”, revela, com ar de arrependimento. Os laços afetivos com o filho, no entanto, não foram rompidos.

“Apesar de ter deixado o Rafael com a vó, eu acompanhei o crescimento dele. Como morava perto, sempre via e falava com ele e também ia para algumas reuniões da escola”, frisa. Mesmo morando com a avó, o garoto só foi registrado pelo pai aos 12 anos.

Hoje, aos 22 anos, Rafael costuma visitar a mãe “e é muito brincalhão”, característica que Cléuvia faz questão de destacar. O jovem é pai do pequeno Arthur, de 4 anos, que mora com a avó materna.

Apoio à filha: “não quero que ela passe o que passei”  

Poucos meses depois que Rafael nasceu, Cléuvia conta que conheceu o pai de seus outros quatro filhos: Jorge Luiz (19 anos), Angélica (16), Caroline (14) e Jean Miguel (3).

Agora na maturidade e preparando-se para ser avó pela segunda vez, ela não deseja que a sua história de abandono se repita com a filha Caroline, de 14 anos: grávida de seis meses, a adolescente terá o bebê em agosto.

“Não vejo a hora de conhecer a minha netinha. Não quero que minha filha passe o que eu passei. Por isso, dou todo o apoio que ela precisa”.

Apesar de ter orientado a filha para priorizar os estudos, a gravidez aconteceu. A jovem e o pai da criança estão morando juntos. “Mas ela vai continuar estudando”, planeja.   

Não à violência doméstica    

Há três anos, quando nasceu Jean Miguel, Cléuvia teve que enfrentar mais uma difícil batalha: o companheiro de duas décadas começou a beber e a agredi-la verbalmente. A violência psicológica se agravou e ela resolveu denunciar o agressor.

“Hoje tenho medida protetiva pela Lei Maria da Penha”, conta. Com a nova situação, ela passou a ter acompanhamento psicológico do CREAS, órgão que assiste pessoas em situação de vulnerabilidade e risco social.

Sem pensão alimentícia, Cléuvia arca sozinha com as despesas da casa. Trabalha com carteira assinada na casa da filha de dona Judilita, a ex- patroa, de quem nunca mais se separou. “Eu trabalho com essa família há mais de 20 anos”, orgulha-se.

Villa Cristã: lugar de acolhimento    

Com tantos desafios, a Villa Cristã é uma espécie de “mãezona”, que acolhe Cléuvia e seus filhos com muito carinho. “Eu me sinto acolhida. A Villa Cristã é a minha segunda casa e as pessoas são como se fossem da minha família”, agradece.

“A gente frequenta a Villa desde 2006, na época de seu Milton [o fundador da Villa], que também ajudava muito a gente”.  Cléuvia, que mora em Águas Lindas de Goiás, diz sentir-se aliviada pelo apoio da Villa às famílias durante a pandemia. “Recebi as cestas básicas e os kits de limpeza. Foi muito bom”.

 “O importante é fazer o bem”

Apesar de se considerar evangélica, ela participa de todas as atividades da Villa e não perde as palestras e os encontros realizados aos sábados.

“Deus é um só. O importante é fazer o bem. Eu gosto muito das rodas de conversa”, diz, referindo-se às atividades promovidas pela Diretoria de Estudos Doutrinários (DED) e pela Associação Médico Espírita do Distrito Federal (AME-DF).

“É muito agradável porque a gente pode se expressar e falar das necessidades umas das outras”.

As duas filhas adolescentes também participam das aulas de evangelização da Villa, promovidas pela Diretoria de Infância e Juventude (DIJ).

Curso de costura e aulas de Inglês     

Para aprender uma atividade que possa lhe servir como fonte de renda, ela se matriculou no curso de costura da Villa. “Minha mãe é costureira e eu tinha o hábito de costurar na mão mesmo. O curso foi uma boa oportunidade para eu me aprimorar”, afirma.

Já as filhas participam das aulas de Inglês.  Os cursos são ministrados aos sábados por voluntários da Diretoria de Promoção Social (DPS).

 A maternidade   

 Apesar das inúmeras dificuldades e preocupações, Cléuvia diz ser grata a Deus pelo presente da maternidade: “Agradeço muito, pois muitas mulheres querem ter filhos e não conseguem”.

 Sobre a experiência de ser mãe, ela responde. “É um sentimento inexplicável. Me acho uma heroína.”

Leia a primeira história da série:

 Especial Mães da Villa Cristã: “A Villa Cristã mudou a minha vida” 

Texto: Arlinda Carvalho
Fotos: Arquivo pessoal

Leia mais notícias...

Você deve logar para postar um comentário.